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agosto 01, 2015

E agora, José?



Na infância eu fazia planos de aprender a ler e escrever, andar de bicicleta sem rodinhas laterais, poder andar pela rua sem ter segurar na mão de um adulto, não ter medo do escuro.
Na adolescência o plano era ser aceita pelo grupo, obter a aprovação dos demais, aprender a beijar na boca, falar as coisas certas.
Na juventude o negócio era entrar na faculdade, escolher uma profissão e me sustentar com ela, escolher um parceiro, casar, ter filhos, dar conta de ser linda, inteligente, bem sucedida, apaixonada, ter a casa impecável e a família reunida como no comercial de margarina.
Na idade adulta o plano era lidar com todo esse enguiço que eu arrumei e sair da encrenca com o menor dano possível, descasar, casar de novo, ter mais filho, cuidar da cabeça dos que eu já tinha, recomeçar sem grana, mudar de cidade.
Em tudo isso eu imaginava que, na casa dos cinquenta anos, tudo já estaria feito, conquistado e sedimentado e que então era só relaxar e desfrutar.
Só que não. Descobri que pouco mudou com exceção do acúmulo de rugas, e que os planos continuam a ser feitos, as coisas continuam efervescentes e a dinâmica da vida é essa mesmo: instabilidade!
O ninho vai esvaziando aos poucos, as parcerias vão se modificando e a gente (agora com muito mais conhecimento de si mesmo) vai compreendendo quem é, o que pode querer da vida e, principalmente, o que não quer.
E tem que sentar de novo à beira da janela, olhando o céu de estrelas, e sonhar com o futuro, com os novos planos, com novos encontros e desencontros que a vida vai trazer.
E tem que suspirar com frio na barriga pelo desconhecido, com pulmões cheios de ar e de energia pelo inevitável e se perguntar sinceramente: e agora, José?

março 20, 2015

Há Algo Melhor Do Que Encontrar Sua Alma Gêmea



Melhor do que encontrar sua alma gêmea é encontrar-se a si mesmo.
Almas gêmeas – sim, no plural – servem apenas para refletir aquilo que somos, no caso de ainda não sabermos ou de termos esquecido. Não são complementares mas extremamente parecidas, daí o erro e a confusão de querermos nos aproximar delas uma vez que, como diria Caetano: ‘Narciso acha feio o que não é espelho’!
Não há nada melhor que descobrirmos quem somos, o que podemos ser e do que gost
amos, do que precisamos. Só se pode amar aquilo que se conhece – se não completamente pelo menos em parte! – e ninguém pode amar a si mesmo se não se conhecer.
A falta de amor próprio faz com que busquemos alguém para fazer isso por nós, alguém que possa nos amar e suprir essa falta.  Fazendo isso, estamos delegando poderes quase que divinos a outrem, terceirizando o que talvez seja a maior responsabilidade das nossas vidas!
Nada contra almas gêmeas, almas complementares, buscar um ou o amor das nossas vidas desde que continuemos no processo de autoconhecimento e de autovalorização, de autoapaixonamento!
Quando a gente se descobre, se ama e se respeita, tudo o que vier do outro é lucro, é perfumaria e não necessidade! É aquele biscoitinho que acompanha o café e deixa de ser a refeição principal.
Sim, há algo melhor do que descobrir a alma gêmea, descobrir que ela não é primordial.

fevereiro 12, 2014

Murro Em Ponta de Faca



Murro em ponta de faca é quando a teimosia é maior que o bom senso, é quando o orgulho de dizer que estava errada supera a humildade de voltar atrás.
Murro em ponta de faca é ferir a si mesmo por ter raiva dos outros, é lutar por uma causa perdida só pra dizer que não perdeu.
Faca não sente dor, não se intimida, nem se alinha à sua vontade.
Mãos, sim.                                                     
Mãos constroem, mãos acariciam, mãos sustentam, mãos podem sentir.
Murro em ponta de faca é passado.
Cicatrizes são parte da história de cada um.

fevereiro 04, 2014

Ninho-Casulo



Ainda menina, já sonhava com a casa: janelas abertas, árvores no quintal.
Sonhava com aconchego, com carinho, calor humano abrigados sob as telhas de barro.
Queria ter asas enormes, não pra voar, mas para abrigar e proteger todo mundo que precisasse.
Daí cresci e me rendi ao sistema seguindo à risca o protocolo: faculdade, emprego fixo, apartamento, seguro do carro.
Mas, caramba, não me adaptava, a coisa nunca chegou a fluir.
De volta às origens, acabei realizando o sonho da casa. Mais que casa: ninho! Mais que ninho: casulo!
Lugar onde me abrigo, onde me sinto segura, onde tenho liberdade de me metamorfosear. E onde posso acolher gente! Gente que sabe que precisa, gente que procura, gente que quer ser ajudada a percorrer esses caminhos da vida da gente.
No meu ninho-casulo a transformação veio e preparou as asas com as quais posso encobrir quem precisar.
Lar.

janeiro 08, 2014

Casamento à Moda Antiga



Dizer que antigamente as coisas eram melhores é o mesmo que achar que a grama do vizinho é sempre mais verde: pura balela!
Sua avó e a avó da bisavó dela viveram casamentos eternos e duradouros, em muitos casos, porque casamento era pra durar pra sempre ou até que a morte os separasse. Elas permaneciam presas ali porque não havia outra opção. Passavam a fazer parte do patrimônio doméstico, assim como os móveis e utensílios de cozinha.  
A mulher não tinha voz. Nem vez.
Prova disso é a quantidade de mulheres que, ao ficarem viúvas, tornam-se mais faceiras e animadas, passando a aproveitar a vida como nunca antes.
É como se tivessem recebido sua carta de alforria!
Se o casamento for bom, se for de proveito para as duas partes, então que seja eterno enquanto dure. Do contrário, melhor seguir carreira solo.